Sábado, 23 de Junho -

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    Você sabe a diferença entre psicólogo e coach?

    A novela da Globo “O Outro Lado do Paraíso”, veiculada às 21 horas provocou uma polêmica: uma advogada especialista em coaching está tratando o trauma de uma jovem com o sexo, que os personagens não sabiam, mas está ligado a um abuso sexual infantil. O Conselho Estadual de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) se pronunciou, alegando que:

    “(..) a novela em questão sugere como “solução rápida” e como uma “ferramenta para extrair a verdade” a prática do coaching para acessar o bloqueio sexual oriundo de abusos sexuais sofridos na infância. O CRP-MG ressalta que tal prática não é ferramenta adequada para lidar com problemas psíquicos, transtornos mentais ou qualquer outro tipo de fragilidade emocional que demande cuidado e tratamento, tal como indica a novela. O tratamento psicológico, sim, é capaz de interferir na perpetuação do sofrimento, trazendo reestruturação e resiliência para as vítimas de abuso.”

    Com isso, é normal se perguntar: qual é a diferença, afinal, entre um psicólogo e um coach? Ou mesmo tentar entender o que cada profissional faz. Nesse artigo quero esclarecer quaisquer possíveis dúvidas, uma vez que tenho formação em ambas as áreas.

    Se você se sente triste ou apresenta sintomas percebidos como problemas, o ideal é a busca pela compreensão do que está havendo com você, pois além de mental, pode existir um componente físico e necessidades médicas. Um psicólogo pode melhor analisar suas condições psíquicas para indicar um tratamento. Já as sessões de coaching não são ideias para “tratamento”, pois não há doença, mas um trabalho preventivo de excelência e bem-estar.

    Qual a área de atuação de um coach?

    A área de atuação desse profissional é algo maleável, uma vez que não há um órgão responsável. Por exemplo, a psicologia o Conselho Federal de Psicologia, que é “uma autarquia que tem a finalidade de “orientar”, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe”. Quando há um órgão que fiscaliza uma profissão, as exigências são inúmeras, pois há diversas obrigações, deveres, regras e normas a serem cumpridas. O coach, o trainner da PNL e o hipnólogo, por exemplo, que não estão regidos por esse modelo de fiscalização, estão fora desse processo. Desse modo, a área de atuação é algo flexível.

    Habitualmente, o foco do coach é na solução de melhoria contínua e não na cura de problemas propriamente ditos. Não há um anamnese, uma avaliação nos moldes da medicina e psicologia. A ideia é estimular o coachee (cliente do coach) ao desenvolvimento para o encontro de excelência nas áreas de interesse, tais como pessoal, profissional e social, por exemplo.

    O formato mais conhecido de sessões de coaching que envolvem encontros com número de sessões pré-determinados, pois o modelo segue uma sequência pré-estabelecia que vai além do olhar e individualização do coachee. O coach conduz o processo baseado em metodologia de perguntas precisas que estimulam o coachee a pensar e encontrar seu caminho de resposta. Não há análise ou opinião do coach, muito menos é feito qualquer tipo de intervenção através de aconselhamento.

    E qual a diferença do coach para o psicólogo?

    No atendimento psicológico, além das regras e olhar atendo do conselho de psicologia, o modelo varia de acordo com a formação do profissional, psicanálise, hipnose ericksoniana, cognitiva comportamental, etc. Para alguns psicólogos, as sessões se iniciam com avaliação de testes, uma extensa anamnese de compreensão e mapeamento da história de vida, familiar, inclusive da saúde física. Outras sessões incluem reflexão, análise ou mesmo tarefas e métodos de avaliação de resultado.

    O atendimento para a cura se dá após um diagnóstico, uma compreensão maior do que o problema apresentado. Durante o tratamento, as ferramentas usadas podem ser de diversas fontes, desde que seja da escolha, formação e conhecimento do psicólogo. Essas formações, habitualmente, são feitas após o período de faculdade, como especializações, mestrado e etc.

    Dá para fazer os dois?

    O modelo de atendimento da psicologia clínica pode ser feito e seguido paralelo ao atendimento do coach. Os tratamentos são complementares, justamente, pois são meios diferentes de melhoria e bem-estar emocional. Um processo não exclui e nem invalida o outro, ao contrário, fortalece e trás bons resultados.

    Quando se pensa na indicação de um profissional, por exemplo, para um coach indicar que seu coachee faça uma psicoterapia ou mesmo um tratamento psiquiátrico é interessante pensar alguns pontos:

    • Nem sempre o curso de formação desse profissional ensina quais os profissionais podem e devem ser indicados e para quais casos. Ou seja, nem sempre o coach está apto para compreensão maior da mente humana para ser capaz de indicar o tratamento a ser feito
    • Às vezes, é preciso contar somente com o bom senso e capacidade individual do profissional de percepção do seu coachee para um possível indicação de tratamento, muito mais do que uma regra estabelecida
    • É preciso levar em conta que para alguns profissionais ainda não muito experientes, a indicação para um tratamento fora do processo de coaching é sinônimo do não sucesso, da não obtenção do resultado final, como se isso fosse um problema grave, o que jamais deveria ser, pois quando se tem mais experiência no coaching constata-se aquilo que acredito fortemente, os trabalhos se somam para o melhor resultado.

    Nenhum tratamento é milagroso

    Compartilho que já tenho 20 anos de trabalho na área de psicologia clínica e 15 anos de atuação na área de coaching e nesses tantos anos de trabalho percebo que as formações são sempre bem-vindas para atualização do conteúdo a ser oferecido durante o tratamento. A ferramenta do coaching, por exemplo, é apenas uma entre tantas do processo. O foco é, e deve sempre estar, no que o cliente quer melhorar e na dinâmica individual de cada um. E esse aprendizado é constante, pois o profissional deve ir muito além da “técnica da moda”.

    Hoje uma técnica emocional fica famosa e posta como “milagrosa”, e depois se descobre que a cura não acontece num simples passe de mágica e que é preciso atenção, mudança e consciência da própria vida para que algo aconteça efetivamente de modo duradouro. Mas nesse amanhã já terá espaço para que se crie outras técnicas para substituição daquela e tentativa de nova cura milagrosa. E assim, segue numa constância de criações de boas ferramentas, mas vendida como solução única ao invés de complementar com excelência. Compreender o ser humano com atenção, escuta e orientação faz diferença no resultado.