Sábado, 15 de Dezembro -

  • Resgate dos meninos na Tailândia mostra que a calma pode salvar vidas

  • Era dia 23 de junho quando o técnico de futebol Ekkapol Chantawong levou 12 meninos do time que treinava, os Javalis Selvagens, para um passeio de bicicleta. Após começar a chover, o grupo decidiu se abrigar em uma caverna. A tempestade foi ficando mais forte e o grupo ficou ilhado devido às inundações.

    Os meninos, que têm entre 11 e 16 anos, e o treinador, de 25, ficaram isolados e sem comida até dia 2 de julho, quando mergulhadores ingleses encontraram o grupo. No entanto, por estar a 4 quilômetros da entrada da caverna, com passagens estreitas e inundadas, o resgate não seria simples.

    Só no domingo, 8 de julho, o resgate dos meninos começou a ser feito. A operação envolveu 90 mergulhadores trabalhando durante três dias. O esforço possibilitou trazer todos com saúde à superfície.

    Mantendo a calma

    Foram 17 dias de clausura em uma situação de extrema vulnerabilidade. No entanto, mesmo sem saber se seriam trazidos de volta, as crianças e o técnico escreveram cartas aos seus familiares em tom descontraído. “Professores, não nos deem muito dever de casa!”, dizia uma delas.

    Muita gente atribuiu a calma ao fato de Ekkapol, o treinador e líder do grupo, ter sido monge budista por 10 anos.

    Mesmo sendo uma situação extrema, já que cavernas não estão no nosso dia a dia, muita gente se colocou no lugar daqueles meninos.

    E nem todo mundo manteria a calma diante de uma situação assim. No entanto, o nervoso pode ser a pior alternativa. “O nervoso desconecta a pessoa da realidade. Ficar em pânico é criar mais problemas do que existem. Você começa a ter delírio visual, ver bicho onde não tem… Nossa mente sempre é pior do que qualquer realidade, porque a realidade tem um limite”, explica Amélia Kassis, psicóloga e especialista do Minha Vida.

    Em situações de dificuldade – como no momento em que os meninos e o professor se viram presos em uma caverna com a possibilidade de alagamento – é muito comum que a ansiedade e o estresse nos impulsionem a tomar decisões que podem não ser as mais adequadas para o momento.

    Isso acontece porque em nosso cérebro temos uma parte denominada cientificamente como cérebro reptiliano, ela é localizada abaixo do neocórtex e é responsável por nossos sistema de alarme. O cérebro reptiliano deriva dos répteis, ou seja, é uma parte irracional da nossa estrutura cerebral que nos ajuda a garantir a sobrevivência em situações de risco

    De acordo com a especialista em psicologia transpessoal Wanessa Moreira, orientadora pessoal e master coach, o cérebro reptiliano não pensa nas consequências, ele apenas nos impulsiona a tomar decisões de ataque e defesa, pois é movido pelo medo. Um exemplo é pensar no momento em que atravessamos uma rua e vemos um carro vindo em nossa direção. Nesse tipo de situação, nosso cérebro reptiliano nos impulsiona a correr para evitar que sejamos atropelados.

    Na situação em que os tailandeses se encontravam seria muito comum eles serem movidos apenas por impulsos irracionais vindos do cérebro reptiliano. No entanto, para Wanessa, o fato de o professor ter conhecimento de meditação e já ter sido monge contribuiu para que tanto ele quanto os alunos conseguissem manter a calma diante da situação

    “Naquela situação o que os alunos menos precisavam era a ação do cérebro reptiliano. Era necessária uma forma de mantê-los calmos, confiantes e otimistas. E essa serenidade pode ter vindo por meio do conhecimento de meditação do professor”, explica Wanessa.

    Meditação

    O que acontece é que quando meditamos a região do neocórtex é estimulada. Esse estímulo possibilita que o cérebro pense em soluções em longo prazo de forma mais organizada e prudente. “A meditação possibilita que nosso cérebro construa caminhos antes mesmo que eles aconteçam. Para o nosso cérebro cada pensamento funciona como se fosse real. Sendo assim, conduzir as crianças para um sentimento de calma possibilitou que elas lidassem com a situação com muito mais serenidade e sabedoria”, afirma Wanessa.

    De acordo com Amélia, a meditação é capaz até de atenuar sensações físicas e instintos primitivos, como o frio e a fome. “Óbvio que você tem uma necessidade de comida, mas se você está completamente relaxado, você gasta menos energias. O estresse desgasta”, explica.

    Autocontrole

    E é possível se preparar para momentos em que o desespero tende a dominar. Além da meditação, o yoga também é uma técnica que ajuda no gerenciamento das emoções, para que elas não dominem sozinhas a mente e o espírito.

    Há outras práticas mais simples que podemos adotar no dia a dia e nos ajudam a estar prontos quando as situações desesperadoras aparecem.

    Você costuma prestar atenção à forma como está respirando? Para controlar a respiração, um bom exercício é encher os pulmões de ar e soltar lentamente pela boca, repetindo algumas vezes.

    Contar até 10 parece uma dica já batida, mas, segundo Amélia, dá tempo para o cérebro perceber que há reações possíveis além de lutar, fugir ou morrer. Outro exercício também envolve o corpo, tensionando todos os músculos que nos envolvem e ir relaxando-os aos poucos.

    Sistema de percepção equivocado

    Wanessa explica que o cérebro reptiliano representa a menor parte do nosso cérebro. No entanto, é a região que mais utilizamos em nossa rotina. Ou seja, em mais de 90% do nosso tempo nosso instinto de sobrevivência está em ação – é como se vivêssemos na iminência do perigo e fosse necessário lutar por nossa vida. Ter objetivos e batalhar para que as coisas aconteçam é saudável e necessário, mas não é isso que acontece. “Esse é um dos motivos pelos quais as pessoas são tão estressadas e sentem como se a vida fosse uma eterna luta. Somos programados para enxergar a vida como guerra, mas a vida não é isso”, enaltece a especialista.

    Ela aponta que em nossa vida não desenvolvemos habilidades para resolver problemas, apenas executamos tarefas. Com isso, é comum também nos vermos, de forma metafórica, aprisionados em cavernas sem a possibilidade de saída. Na verdade, não é a vida que não oferece uma rota de fuga e sim nós que não somos treinados para enxergar outras possibilidades.

    “A partir do momento que tomamos consciência de que nossa percepção pode mudar, nos conectamos com sentimentos bons e somos capazes de viver situações mais agradáveis, pois nos conectamos com o universo”, conta Wanessa.

    A especialista diz que podemos imaginar nossos sentimentos como se fossem uma entrada de tomada. “Se estamos em uma frequência ruim, seremos plugados por cenas e situações ruins. A partir do momento que mudo minha percepção também me conecto com situações, experiências e pessoas que são compatíveis à minha sensação”.

    De acordo com Wanessa, qualquer pessoa pode transformar seu sistema de pensamento e, assim como as crianças tailandesas, manter a calma nas diferentes situações que aparecem na vida. A seguir ela explica quatro passos para seja possível mudar o sistema de pensamento:

    Olhe para você

    Em momentos de desespero, é importante olhar para os próprios sentimentos e como está a sua vida naquele momento. “Isso possibilita que cada um saia do automático e abandone os pensamentos de sobrevivência, que motivam a tomar decisões irracionais”, conta Wanessa.

    Olhe para sua força interior

    Essa dinâmica ajuda a entrar em contato com as potencialidades que cada um carrega dentro de si. Muitas vezes, os acontecimentos e a rotina fazem com que a gente se esqueça da nossa força interior, no entanto, ela continua lá. Basta que a conexão com ela seja restabelecida. Caso não consiga, é importante refletir sobre em qual momento essa força foi perdida? Ou qual situação ofuscou o nosso brilho interno?

    Tenha gratidão e amor

    Ser gentil consigo, saber reconhecer as vitórias que alcançou, agradecer pelos desafios que enfrentou até aqui e aceitar o que é e onde está é o aprendizado a se obter nessa etapa. Wanessa diz que na maioria das vezes não conseguimos ser gentis conosco. Ao invés disso, focamos em tentar descobrir qual foi a causa do problema, mas isso faz com que nosso cérebro reptiliano seja novamente acionado. “Essa dinâmica não traz o entendimento da situação nem nos mostra o próximo passo. Pelo contrário, quando focamos no problema é como se o nosso cérebro vivesse aquela situação novamente. É uma violência que praticamos com nós mesmos. Por isso, em situações difíceis precisamos refletir, mas não deixarmos de ser solidários conosco”.

    Presencie a sincronicidade

    A partir do momento que transformamos nossa percepção nos conectamos com o fluxo da vida que, segundo Wanessa, é onde as coisas acontecem a nosso favor. “Sempre que temos entraves, é importante olharmos para dentro de nós, pois assim seremos capazes de transformar a vida do lado de fora”, finaliza.